sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Está moribunda a máquina da ditadura, mas ainda não morreu. Os tunisinos querem ter a certeza que é enterrada, por isso estão nas ruas
Homens e mulheres celebram nas ruas o derrube da placa da RDC Homens e mulheres celebram nas ruas o derrube da placa da RDC (Miguel Manso)

Avenida Mohamed V, pouco antes das 12h00 do dia 34 dos protestos na Tunísia. Há uma multidão diante do portão da sede do RCD (União Constitucional Democrática, o partido no poder desde 1987), um edifício imponente, 17 andares de vidro e mármore. Uns dez soldados estão do lado de fora do portão e tentam afastar as pessoas. Alguns têm flores de plástico no cano das espingardas, alguns parecem assustados. Há homens a trepar pelas grades. Os militares puxam por eles e obrigam-nos a descer, mas logo outros voltam a fazer o mesmo.

Há homens e mulheres, novos e velhos. Um pai decidiu levar o filho, Mohamed, no carrinho. Um cartaz identifica-o como "o mais jovem manifestante" decidido a derrubar o regime do RCD, que tem ainda sete ministros no Governo interino. A multidão não dispersa e os soldados parecem cada vez mais perdidos.

Um oficial aproxima-se de megafone na mão. Primeiro tenta ganhar espaço, empurrando com a ajuda dos soldados mais jovens a multidão para fora do passeio. "Tenho uma notícia", diz. "O RCD terminou o seu serviço ao país."

A manifestação irrompe em palmas e risos e lágrimas. Homens que não se conhecem abraçam-se como velhos amigos. "É o fim do RCD", diz Lina, uma estudante, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

Dois vizinhos encontram-se entre a confusão. "Estás bem?", pergunta um deles. "Claro, desde o 14. Mas hoje ainda vou ficar melhor." Foi a 14 de Janeiro que o Presidente Ben Ali fugiu da Tunísia, ao fim de 29 dias de protestos e três discursos em que jogou todas as cartas, da indiferença às ameaças, chegando tarde demais às concessões.

O anúncio do oficial espalha alegria mas não demove ninguém. Alguns soldados ainda dispararam para o ar, mas não há nada a fazer. Um homem consegue passar o portão, depois outro. Passam pelos tanques no pátio e só param quando chegam à entrada. Alguém traz uma escada, mas a escada é curta para chegar à placa com o nome do partido por cima da porta. Vai ser preciso entrar no edifício e isso demora, mas faz-se. E é através das janelas que os mais ousados conseguem partir em pedaços a placa desejada, arrancando-a até não sobrar nada. Outros vão transportando cada pedaço até aos que esperaram horas por este momento e os bocados de metal passam de mão em mão, entre palmas e gritos.

Ministros rasgam cartões

Quando o Presidente Ben Ali decidiu mandar encerrar escolas e universidades para tentar travar os protestos, só conseguiu que as manifestações passassem a ter mais gente. Quando o Governo interino que lhe sucedeu aligeirou o recolher obrigatório para tentar acalmar os tunisinos que recusam parar de protestar, só deu à população mais horas para se manifestar.

Tunes parece uma manifestação sem fim. Durante toda a tarde, milhares de pessoas percorreram para trás e para a frente a Avenida Habib Bourguiba. Celebraram o derrube da placa da sede do RCD e gritaram o nome de todos os ministros do partido que integram o governo de transição, a seguir a cada um sempre as mesmas palavras: "Basta" e "Fora". Nos passeios largos, quem passa pára e sorri, tira do bolso o seu próprio cartaz.

Para acalmar a contestação, os ministros visados decidiram ontem desfiliar-se do RCD, seguindo o exemplo do Presidente e do primeiro-ministro interinos, que tinham já rasgado os cartões partidários que durante anos lhes abriram portas. Um deles apresentaria mais tarde a demissão. As saídas forçaram a dissolução do comité central - um primeiro golpe à formação, reforçado horas depois com o anúncio da nacionalização "dos seus bens mobiliários e imobiliários". Segundo o Governo, estas são medidas essenciais para a separação entre o Estado e o partido com quem ele se confundiu durante décadas. É, no entanto, incerto se o RCD será dissolvido, como se pede nas ruas

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